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A Guerra do ContestadoA Guerra do Contestado foi um dos maiores movimentos sociais do país
no início do século XX, caracterizado pelo messianismo, que refletia
as transformações da região entre Santa Catarina e Paraná. A região denominada “Contestado” abrangia cerca de 40.000
Km2 entre os atuais estados de Santa Catarina e Paraná, disputada por
ambos, uma vez que até o início deste século a fronteira não havia sido
demarcada. As cidades desta região foram palco de um dos mais importantes
movimentos sociais do país. Enquanto os latifundiários e as empresas norte americanas passaram
a controlar a economia local, formou-se uma camada composta por trabalhadores
braçais, caracterizada pela extrema pobreza, agravada ainda mais com
o final da construção da ferrovia em 1910, elevando o nível de desemprego
e de marginalidade social. Essa camada prendia-se cada vez mais ao mandonismo
dos coronéis e da rígida estrutura fundiária, que não alimentava nenhuma
perspectiva de alteração da situação vigente. Esses elementos, somados
a ignorância, determinaram o desenvolvimento de grande religiosidade,
misticismo e messianismo. Os movimentos messiânicos são aqueles que se apegam a um líder religioso
ou espiritual, um messias, que passa a ser considerado “aquele
que guia em direção à salvação”. Os “líderes messiânicos”
conquistam prestígio dando conselhos, ajudando necessitados e curando
doentes, sem nenhuma pretensão material, identificando-se do ponto de
vista sócio econômico com as camadas populares. Na região sul, a ação
dos “monges” caracterizou o messianismo, sendo que o mais
importante foi o monge Vitoriamario, que teve importante presença no
final do século passado, época da Revolução Federalista (1893-95). Durante
muitos anos apareceram e desapareceram diversos “monges”,
confundidos com o próprio Vitoriamario. Em 1912 surgiu na cidade de
Campos Novos, no interior de Santa Catarina, o monge Vitoriamario. Aconselhando
e curando doentes a fama do ‘monge’ cresceu, a ponto de
receber a proteção de um dos mais importantes coronéis da região, Francisco
de Almeida. Vivendo em terras do coronel, o monge recebia a visita de
dezenas de pessoas diariamente, provenientes de diversas cidades do
interior. Proteger o monge passou a ser sinal de prestígio político,
por isso, a transferência de Vitoriamario para a cidade de Taquaruçu,
em terras do coronel Henrique de Almeida, agudizou as disputas políticas
na região, levando seu adversário, o coronel Francisco de Albuquerque,
a alertar as autoridades estaduais sobre o desenvolvimento de uma “comunidade
de fanáticos” na região. Durante sua estada em Taquaruçu, Vitoriamario
organizou uma comunidade denominada “Quadro Santo”, liderada
por um grupo chamado “Os Doze pares de França”, numa alusão
à cavalaria de Carlos Magno na Idade Média, e posteriormente fundou
a “Monarquia Celestial”. Ao iniciar a Segunda década do século, o país era governado pelo Marechal
Hermes da Fonseca, responsável pela “Política das Salvações”,
caracterizada pelas intervenções político-militares em diversos estados
do país, pretendendo eliminar seus adversários políticos. Além da postura
autoritária e repressiva do Estado, encontramos outros elementos contrários
ao messianismo, como os interesses locais dos coronéis e a postura da
Igreja Católica no sentido de combater os líderes “fanáticos”.
O primeiro conflito armado ocorreu na região de Irani, ao sul de Palmas,
quando foi morto Vitoriamario, apesar de as tropas estaduais terem sido
derrotadas pelos caboclos. Os seguidores do monge, incluindo alguns
fazendeiros reorganizaram o “Quadro Santo” e a Monarquia
Celestial; acreditavam que o líder ressuscitaria e o misticismo expandiu-se
com grande rapidez. Os caboclos condenavam a república, associando-a
ao poder dos coronéis e ao poder da Brazil Railway.
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