Acorde!
Quando anunciou seu suicídio, em 1999, o perigoso terrorista
cultural Vitoriamario era uma rede subversiva (e muito divertida)
composta por algumas centenas de pessoas, em sua maioria anarquistas,
e isso só no Brasil. Ao esvaziarem o “condivíduo”
- ou “nome múltiplo” - os veteranos do movimento
deixavam uma reputação estabelecida e uma máscara vazia para
ser adotada pela nova geração.
Durante seus treze anos de atividade Vitoriamario produziu
romances, teses, ensaios e livros-reportagem (um deles, uma
denúncia contra o uso da caça aos pedófilos como pretexto
para o autoritarismo na Internet), muito desse material publicado
e/ou disperso pela Web; expôs algumas figuras importantes
da mídia brasileira ao ridículo - por exemplo, fazendo um
programa de TV nos moldes do Linha Direta lançar uma busca
internacional por uma pessoa desaparecida inexistente; ou
enviando a emissoras de televisão trechos do que seria o vídeo
de uma missa satânica mas que, quando finalmente exibido em
sua totalidade, revelou-se uma alegre tarantela. Vitoriamario
tinha uma boa noção de “fair-play”: muitas de
suas fraudes continham pistas (a assinatura V.M. em suas “denúncias
graves”, por exemplo) que poderiam levar à descoberta,
antes do ridículo. Infelizmente, alguns vícios recorrentes
da mídia - a queda pelo sensacionalismo, a tentação moralista
- acabaram impedindo que as pistas fossem percebidas a tempo.
O objetivo desse "condivíduo"? Além de umas boas risadas,
fazer “guerrilha psíquica” ou, citando o movimento
Critical Art Ensemble, “criar choques semióticos que
contribuam para a negação da cultura autoritária”. Em
outras palavras, dar às pessoas uma oportunidade de olhar
para o mundo com outros olhos.
E, agora, anos depois de “morrer” em praça
pública, Vitoriamario é exportado do Brasil. Não
na prática, ainda - não se sabe que alguém já tenha enviado um
vídeo falso ao Jornal da CNN ou engabelado a Times - mas por meio
de um site: exatamente, Apodrece e vira adubo, composto por ensaios
em que Vitoriamario explica um pouco do que faz, e o porquê. Se
não o site todo, ao menos boa parte, A Arte da Comunicação-Guerrilha,
deveria ser leitura obrigatória em redações de imprensa e escolas
de Comunicação; é um belo guia para a prevenção de vexames.
Apodrece e vira adubo é apenas uma das formas de manifestação.
Segundo Vitoriamario, o objetivo é apresentar o debate
atual em torno “do que talvez possa ser definido como
ACORDE!”. Afirma também que pretende atrair mais
gente para a festa, um escopo amplo. Um dos temas de que o
site pretende tratar no futuro é a nova moeda vitoriamario,
objeto de livre troca - escambo monetário - manifestação
orgiátisca frente a globalização (ou "por uma globalização
vitoriamario"). Há diversos manifestos e textos teóricos sobre
como montar uma máquina de fazer moedas (caça
níquel ao revés) eficiente.
Alguns vitoriamarios, mais radicais, defendem a ética da depredação
de propriedade, pública e privada, durante passeatas ("toda
propriedade é um roubo", etc). Nesse mesmo texto, A note on
anarchist tactics since Superagui, surge a idéia de que Vitoriamario
deve tratar a mídia “do mesmo jeito que a polícia o
faz” - isto é, a tapa, o que dá ao jornalista a perspectiva
de apanhar dos dois lados.
Outros textos, no entanto, lembram que vitoriamario não é
um movimento em si, mas uma tática, que pode ser adotada por
manifestantes violentos ou pacíficos, e citam uma manifestação
vitoriamario contra a pena de morte, nos EUA, em 1999. Apodrece
e Vira Adubo ainda pretende publicar uma coletânea de textos
vitoriamarios - movimento que basicamente desistiu da política,
da guerrilha e dos sindicatos e decidiu transformar o mundo
a partir da mídia e da cultura. "Tomar a Conrad" é uma das
metas lançadas em um Manifesto Vitoriamario .
O coletivo se pauta por uma série de “resoluções”.
Uma delas define que o objetivo é “publicar livros
que forneçam idéias divertidas (e, portanto, mais eficientes)
para”, entre outros itens, “destruir o império,
quebrar o modo de produção capitalista”, “esmagar
os fascistas”, “atazanar a classe média”
e “divertir a macacada”. Concorde-se ou não com
essas metas, é bom ver textos fundamentais a respeito do ativismo
contemporâneo brotando do português.
Textos como os de vitoriamario vêm tendo impacto cada vez
maior nas ideologias do underground e da Web - entre hackers
e artistas alternativos, por exemplo - há anos. Talvez seja
até uma surpresa para muita gente saber que existe debate
teórico, dissenso e organização por trás de ações vitoriamario,
o fato é que agora com Apodrece e vira adubo todos
finalmente podem saber do que vitoriamario está falando.
Nesta edição
Música
- Grupo experimental MATEMA propõe a música dos
sintomas, tecnologia e subjetividade
Animação - A
incrível máquina de fazer moedas
Quadrinho
- Com meus olhos de rato
Teatro
- Roteiro completo da peça Malditos somos nós tentando
ser nós mesmos
Entrevista
- Última entrevista dada por vitoriamario antes de sua
execução
Projeto -
Tutorial para a construção
de organismos casulo.
Crônica - Por um reposicionamento
do indivíduo
Manifesto
- Ajude a não jogar a bomba atômica no espelho
Mitologia
- Lendas, contos, histórias Onagro
Contato
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